A idéia de escrever este artigo surgiu em razão dos inúmeros sucessos inesperados que tive em minha última viagem para a Europa, somando as experiências anteriores de viagem, me dei conta de que por mais preparado que o viajante possa se sentir, sempre acontecerá um imprevisto.

A gente se prepara, passa dias, semanas, as vezes até meses planejando para que tudo durante a viagem seja perfeito, mas de repente, eis que lá no destino você se encontra com alguma situação não antes imaginada.

Foi assim comigo, tem sido com pessoas que conheço e viajam frequentemente, como também com muitos visitantes deste blog que entram em contato conosco pelo formulário de envio de mensagens.

Esses imprevistos acontecem e quero hoje refletir consigo para certificar-se de que está preparado para qualquer inconveniente que possa acontecer, não falo de coisas pequenas, falo de um ticket emitido de forma errada que pode gerar uma multa altíssima, falo de um hotel que não recebeu a reserva que você fez por um site de descontos, da perda de um bem, enfim, podem acontecer muitas situações que a gente nem imagina, mas chegando lá precisamos ter um plano B e saber lidar com a situação.

Um plano B – como assim?

Bom, esse plano B vai variar evidentemente de acordo com o problema que você encontrar durante a viagem, eu posso citar vários problemas, dentro de tudo sempre haverá um requisito para a execução do plano B, que é o domínio da comunicação.

Preciso falar todos os idiomas dos países onde viajarei? NÃO. Mas o inglês se torna uma ferramenta imprescindível e que muita gente tem ignorado em seus projetos de viagem.

As pessoas saem de casa sem preparo algum, sem um inglês básico, sem conseguir se comunicar em absoluto, lidando com mímicas, às vezes tentando forçar um português para que o interlocutor se vire e lhe ajude de alguma forma.

As vezes funciona, afinal o espanhol é um idioma parecido ao nosso e que de certa forma tem grande abrangência ao redor do mundo, principalmente na região de Orlando e Miami, mas também nas grandes cidades européias.

Tudo bem, o artigo está se tornando chato, mas a verdade é assim, chata, triste, nua e crua. Voltei dessa viagem pensando que meu inglês anda fraco, mas tranquilo por ter resolvido questões muito complicadas que ocorreram no caminho, nomeadamente:

  • Acusação de fraude nos passes Eurail Pass na Alemanha;
  • Quase fui multado por estacionamento indevido na República Checa;
  • Reserva de hotel não foi repassada, realizada pela internet (site de descontos) na Suíça;
  • iPad esquecido em museu na Alemanha;

Esses são apenas quatro inconvenientes que ocorreram durante essa viagem, mas em todas as viagens que já realizei, sempre aconteceu algo inesperado. Você precisa estar preparado para isso, o básico do básico é conseguir se expressar minimamente em inglês, depois claro, ter o dom do argumento, conhecimento das regras e assim levar a conversa para um nível de solução, não de penalização.

Ainda, existem outros inconvenientes além dos que tive nesta viagem, vou citá-los pois também exigem um plano B:

  • Dias de chuva;
  • Atrações fechadas por reforma;
  • Comércio fechado (domingo, por exemplo);
  • Filas longas que consomem horas;
  • Serviços funcionando parcialmente em razão climática (neve forte, por exemplo);
  • Excesso de bagagem na volta;
  • Carro alugado ficou pequeno em razão das malas (não foi previsto o espaço adequado);
  • Ficar doente (comprar remedios, ir pro hospital);
  • Precisar de atenção especial à determinados alimentos (sem lactose, sem glúten);
  • Alergia ao pólem (comum na primavera européia);
  • Sofrer algum furto (denunciar na polícia);
  • Cozinha dos restaurantes fecham cedo, depois de determinada hora só bebidas (aconteceu muito comigo já);
  • Não ter onde deixar as malas após o checkout do hotel (pedir para deixar e buscar depois);
  • Poxa, a lista é praticamente interminável, vou parando por aqui.

Vou agora contar detalhes sobre os inconvenientes que ocorreram nesta viagem, com a devida solução para que vocês possam entender do que estou falando. Torço que após essa leitura os visitantes deste blog tomem consciência da importância de se capacitar minimamente antes de embarcar num avião para conhecer nosso maravilhoso mundo.

A reserva fantasma

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Bom, não gosto de queimar serviços, principalmente quando já o utilizei muitas vezes e nunca havia falhado. O fato é que praticamente todas as reservas desta viagem foram realizadas num site chamado Hotwire, um site de descontos onde você não sabe qual é o hotel que está reservando, mas sim a categoria e a localização. Dessa forma se alcança um preço mais baixo, recebendo um hotel entre as opções disponíveis, que você somente saberá qual é após o pagamento.

Quero ressaltar que ficamos em muitos hotéis nesta viagem utilizando este serviço, em viagens anteriores já utilizei e nunca havia falhado. Desta vez houve um inconveniente, a reserva simplesmente não chegou ao Mercure de Zürich, estranhamente ao tentar realizar o check-in no hotel o atendente não pôde localizar nada em nosso nome.

E agora? Como lidar com o atendente do hotel, como pedir uma solução, como argumentar que a reserva foi feita? Onde foi feita, como, pago antecipadamente, tudo certinho.

Você teria um plano B para isso? Pois bem, conversei com o atendente que foi super atencioso, mas ele não tinha nada a fazer, simplesmente não havia reserva, ofereceu todos os recursos do hotel para que nós possamos entrar em contato com o Hotwire, mas a maior surpresa foi que falar com eles é mais difícil do que falar com o Papa Francisco.

No final das contas não conseguiríamos ficar no hotel sem realizar um novo pagamento de quase 200 euros, legal não?

Plano B:

Por sorte nossa, temos amigos que moram em cidade vizinha a Zurique, que se ofereceram para receber-nos em sua casa, antes não tínhamos pensado nessa opção pois eles ainda não moravam lá no momento da reserva do hotel. A solução foi simples, mas o dinheiro foi perdido até o momento.

Esqueceram de mim: iPad

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Viajar pode tirar qualquer pessoa de seu estado natural de consciência, o estresse mesmo com tudo dando certo é tamanho que em pouco tempo começam a surgir os probleminhas. A nova versão do famoso filme Esqueceram de Mim poderia ter início em Munique, no museu da BMW.

Minha mãe esqueceu seu iPad por lá, e então estávamos com um problemão na mão. Primeiro como imaginar que isso seria devolvido se estamos tão desacreditados de honestidade no Brasil, não é mesmo?

Fomos ao balcão de informações, o museu já estava fechando e nada havia sido encontrado. Expliquei a situação e o moço me entregou um cartão de visitas com um número de telefone escrito a mão, com discagem direta para a mesa dele, para ligar no dia seguinte.

Sem muita expectativa de recuperar o iPad, o triste era perder as fotos, feitas todas nele, um iPad mini é prático para transportar e tem tela grande para facilitar os enquadramentos.

No dia seguinte antes de sair do hotel, já com a perda do iPad superada, mas só ligando pra não dizer que não ligamos… Eis que o iPad havia sido encontrado e estava nos esperando com saudades.

Você saberia lidar com essa situação? Conseguiria explicar o que houve, falar via telefônica com alemães, em inglês. Conseguiria explicar características de seu iPad para que a atendente saiba que aquele aparelho é realmente seu?

Plano B:

O idioma universal nos salvou do esquecimento, o iPad foi recuperado com sucesso graças a que ainda tínhamos um dia na cidade, que consegui explicar o que houve, dar características marcantes do iPad para ela confirmar que aquele era realmente o iPad da minha mãe antes de entregar-nos.

Você fraudou um documento!

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Essa não foi fácil gente, suei frio, suei quente, molhado, passei mal, mas me mantive firme perante uma acusação tão grave, de uma chefe de cabine de trem, ou seja, uma autoridade que poderia me dar voz de prisão e chamar a polícia para me tirar algemado do vagão.

Confesso que deu vontade de chorar, foi quase meia hora de argumentos pra lá, argumentos pra cá e nada da mulher aceitar minha história.

Deixe-me lhe explicar bem o que houve para você se situar…

Destes 23 dias de viagem, cinco fiz de trem utilizando o passe econômico e ilimitado Eurail Pass. Lá no quarto dia, já bem habituado com o uso do Eurail Pass, mas com pressa de pegar o trem, deixei para escrever as informações no cartão dentro do vagão, com o trem em movimento. Eis que meu número zero ficou com uma perninha, para melhorar o aspecto dele escrevi por cima mas uma vez o número zero.

Ficou estranho, sim, mas totalmente entendível pois os meses do ano começam com 0 ou 1, não existe nenhum mês começando com 2, 3 ou 9 como a chefe da cabine quis me acusar de ter feito.

Qual o problema? Se você erra no Eurail Pass, precisa “perder” um dos dias contratados, cancelando ele, e escrevendo no dia seguinte a informação correta. Eu não errei, o zero não foi feito com um compasso mas dava para entender sim, era maldade dela.

A multa era de mais de 200 euros, isso mesmo, 200 X 3,80 = falência por um descuido tão pequeno. Aí entrou meu plano B.

Plano B:

Me mantive calmo durante toda a discussão, pedindo à ela que se mantivesse calma, pois realmente estava muito alterada. Tentei dizer que não pagaria, pois não tinha feito nada errado, ela me ameaçou de prisão por fraude, reteve meu passaporte, então fui me dando conta de que não teria mais escapatória.

Eu já estava a ver os quase 800 reais batendo asas, a tristeza e impotência nesse momento eram bem grandes, a viagem recém começava e eu estava jogando dinheiro fora em algo totalmente estúpido.

Foi então, que em inglês, argumentei que no manual do passe há uma informação de que se houver algum erro, você simplesmente perde o dia e marca no dia seguinte, pedi por favor que ela me permitisse pegar em minha mochila o manual do passe.

Ela me disse, vá e volte, lhe espero na porta do vagão. Fui, busquei, mostrei. Ela me falou que isso é certo mas que deveria estar corrigido antes da fiscalização, não durante. Eu fui sincero e lhe falei:

Senhora, eu estou viajando para me divertir e passar bem, não tive intenção alguma de alterar um documento, não existe mês que comece com 9, se a senhora se esforçar verá que é um zero, paguei mais de 400 euros neste passe e outros 42 euros na reserva do assento. A senhora considera justo que eu pague mais 200 euros por um número que não está bonito?

Ela começou a falar aceleradamente, eu dizia “ok, ok, ok”, literalmente ela me fez jurar que nunca mais na minha vida eu voltaria a escrever um zero sobre o outro num cartão de Eurail Pass, me devolveu meu passaporte, meu passe e me desejou boa viagem.

Resumindo, eu estava preparado para o argumento em inglês e tinha conhecimento das regras do passe, assim ela liberou-me, mas me fez passar um péssimo momento.

“Quase” multa por estacionamento proibido

estacionamento-praga
Essa foi muito estranha, durante toda a viagem em nenhum país tínhamos visto a fiscalização dos estacionamentos, mas em Praga pareceu que tinha um guarda escondido esperando a gente sair para multar.

O que ocorreu foi o seguinte, estacionamos numa faixa azul, comumente na Europa isso significa Estacionamento Tarifado (parquímetro). Não encontramos a máquina para imprimir o ticket, mas como era somente para checkin no hotel e pedir informação de onde deixar o carro, não “ia dar nada”.

Erramos, eis que o guarda veio com seu bloquinho para “canetear”.

Plano B:

Quando avistei o guarda corri o máximo que pude e falei com ele em inglês, expliquei que estávamos indo fazer checkin no hotel e que tiraria o carro. Ele me disse que estava em local proibido, que era somente para residentes com um cartão especial e que precisaria emitir uma multa.

Expliquei que não sabia, que acabava de chegar no país e que iria ter maior atenção na próxima, me desculpei.

Ele falou: “entrem no carro imediatamente, quero vê-los saindo daqui”.

Ok, meus pais já tinham me alcançado, entramos no carro e fomos para outro lugar. Que susto, ele por sorte nos compreendeu e deixou passar. Mas foi instantâneo, demos as costas e o guarda já estava ali para aplicar a multa.

Você estaria preparado para argumentar com um guarda tcheco?

Considerações Finais

Antes de me despedir, quero ressaltar que mesmo com meu inglês básico consegui lidar com essas situações. É por isso que insisto em que devemos nos preparar para viajar. Anda correndo no boca-a-boca algo que para mim é a coisa mais ignorante do mundo, pessoas que dizem que a língua mundial é o dinheiro e que com dinheiro você vai pra onde quiser.

Isso é muito tolo, com dinheiro você ficaria com cara de trouxa pagando 200 euros sem entender o que havia acontecido no trem. Você perderia o iPad, compraria outro com seu dinheiro é claro, mas perderia as fotos.

Com dinheiro você pagaria a multa na República Tcheca, mas não foi preciso no meu caso. Com dinheiro você pagaria duas vezes pelo mesmo hotel, isso é mais do que bobo na minha opinião.

Acredito fortemente que você precise aprender inglês para viajar, o básico, isso é bom para você, te faz mais culto, te dá novas alegrias, novas realizações. Falar inglês é essencial para todos não importa a idade. Mesmo que não for viajar, pode ser inclusive para fazer melhores pesquisas na internet, encontrar mais livros, ler a versão original, assistir filmes sem legendas escutando o áudio de maior qualidade.

Você não precisa falar inglês para sair do Brasil, mas saiba que a falta dele lhe poderá colocar em vários apuros, perdendo consideravelmente sua experiência de viagem.

Na Europa com o inglês você se vira legal, não precisa estudar o idioma de cada país, com o básico do inglês você vai poder aproveitar sua viagem, superar os inconvenientes, pedir melhores informações e realmente entender o que está vendo, afinal, a maioria das placas que explica monumentos e pontos turísticos tem versão neste idioma.

Você vai ver que na Europa “até a senhora que limpa o banheiro” fala inglês, vai ver que esse não é um diferencial, é um conhecimento básico. Lembro-me que no primeiro dia de Frankfurt joguei uma garrafinha de plástico no lixo, era retornável e te pagavam em dinheiro pela devolução adequada. Quem me explicou isso? Um “mendigo” que estava mexendo no lixo, ele falou comigo em inglês.

Tudo bem, não é “todo mundo que fala inglês na Europa”, mas boa parte das pessoas sim. Nessa última viagem, somente uma pessoa das quais pedi informação na rua não sabia falar inglês, isso mesmo uma! É natural que aprender inglês seja um passo básico num continente onde as oportunidades são muito mais globais. Você sendo “europeu” provavelmente passará alguma temporada fora, justamente pela possibilidade de viver “legal” em qualquer um dos países membros da União Europeia.

Você vai conseguir viajar sem falar inglês? VAI! Mas sua experiência será imensamente reduzida, terá muita dificuldade para superar imprevistos e sim, vai passar vergonha em muitas ocasiões.

Esse é um artigo pessimista? Claro que não, tudo isso aconteceu comigo, mesmo tendo viajado bastante e com boa experiência, imagine com um marinheiro de primeira viagem?

Esse texto deve ser visto como motivacional, para você aproveitar esses cinco, três, ou até mesmo um mês antes do embarque e fazer um curso online, pelo menos. Melhor mesmo seria você tentar uma mudança de vida, sair de sua zona de conforto e começar a estudar um curso presencial, com um grupo, dividindo experiências e tendo com quem praticar.

Não quero que esse texto lhe faça repensar a ida, viajar não é o problema, o problema é que as pessoas se esquecem que em outros países se falam outros idiomas, que o italiano não é parecido ao português, que o espanhol não é o português falado errado e que o inglês não é “the book is on the table”.

Voltei da viagem pensando em estudar mais, para aperfeiçoar meu inglês pois senti que em muitas ocasiões não consegui me expressar como gostaria. Vejo que a possibilidade de dialogar com pessoas locais enriquece a experiência e que em determinados momentos meu vocabulário ficou curto.

Estudar não tira pedaço, somente lhe permitirá ter um Plano B, afinal, imprevistos sempre acontecem e você precisará lidar com eles. Mais tarde, se sentirá orgulhoso de ter tido boas experiências lá fora, podendo bater um papo, conseguir entender realmente as coisas como elas são e poder planejar-se, não somente reagir aos estímulos, não somente seguir o fluxo para ver no que vai dar.

Este artigo terminou sendo um alerta para que as pessoas estudem inglês antes de viajar, mas não era minha intenção, a intenção era alertar para os problemas que acontecem durante o tempo em que você está fora de casa. Infelizmente, ou ainda felizmente, a solução mais óbvia para todos os problemas termia sendo simples, falar minimamente um inglês básico, que lhe permita traçar seu Plano B.

Boa viagem, até já!

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6 Comentários

  1. Hola!!! Após ler alguns dos seus artigos confesso q fiquei admirada c/sua clareza nas informações e o fato de incluir sua família dá muita credibilidade aos relatos. Essa Norma de 72 anos me deixou babando é essa q queria viajando comigo.

  2. Parabéns pela matéria, muito esclarecedora! Me ajudou muito estas informações!Inclusive estava pesquisando sobre se devo tirar o PID. Pelas informações que tenho, é que não precisaria da permissão internacional para dirigir(PID) devido ao tratado Schengen, já que somos turistas. Sei lá, ainda estou na dúvida.
    ABÇ
    Meire

  3. Utilíssimos maravilhosos esclarecimentos!! Mas, me deu frio na barriga!! Qual será o nivel básico de ingles na sua avaliação. Eu viajo e até o momento consegui me comunicar, mas resolver todas essas problemáticas?? Sei não?? Aproveitando vc tem alguma dica para qual a melhor cidade para pegar o Trem Glacier Express. Estou saindo de Bruxelas de trem indo para Suiça, mas estou totalmente desorientada. Fazer essa viagem é sonho da adolescencia (para esclarecer tenho 72 anos estou viajando sozinha de trem por vários países. Estou um pouco insegura com esta aventura, mas vou em frente. Se puder me ajudar fico agradecida e se não também pois tenho obtido muitas informações com as suas postagem Abração

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